A Orquestra


A Viola


A viola caipira é inseparável da história de formação do povo brasileiro. De origem portuguesa e mais antiga que o violão, aqui desembarcou das caravelas com os jesuítas e bandeirantes há mais de quinhentos anos. Instrumento musical utilizado na catequese dos índios e posteriormente fundamental nas festividades religiosas e profanas, com o passar dos anos a viola enveredou pelo país, sofreu transformações, ganhou novos sotaques e sobreviveu graças à musicalidade e às mãos criativas do nosso homem rural, principalmente o caipira do centro-sul.

Durante a urbanização e industrialização do último século, a viola saiu do interior para ganhar espaço também nas gravações e meios de comunicação por meio das duplas caipiras/sertanejas. Nas últimas décadas, vem despertando interesse e ganhando cada vez mais reconhecimento. Se antigamente era vista com preconceito e restrita ao caipira interiorano, agora se populariza entre jovens e diversas orquestras de violas, passa a ser tema de pesquisas acadêmicas e métodos, inaugura cursos em escolas e universidades e é difundida pela internet e pelos violeiros desde os mais tradicionais até os mais eruditos.

A Filarmônica


A Orquestra Filarmônica de Violas decidiu dedicar-se profundamente à viola caipira não só pela nobre missão de difundir e vivenciar sua rica tradição ancestral, mas também porque percebe com entusiasmo seu momento atual – um tempo em que é possível expandir seu alcance como instrumento musical, pois além de tradicional a viola também é livre e transformadora, capaz de alçar voos a repertórios e universos musicais cada vez mais abrangentes.

Diante dessa perspectiva, a principal característica do grupo é a busca por um resultado artístico relevante – o desafio de criar e tocar música de qualidade na medida em que explora e amplia as possibilidades e sonoridades da viola brasileira de dez cordas. Essa busca é conduzida por dois fatores principais: a elaboração dos arranjos e o desenvolvimento musical dos integrantes da Filarmônica.

A elaboração e interpretação dos arranjos, um dos diferenciais da Filarmônica em relação a outros grupos do gênero, utiliza a estrutura equivalente aos naipes orquestrais. Isso permite ao grupo atuar semelhante à uma orquestra sinfônica convencional com seus naipes de cordas, madeiras, metais e percussão, no entanto, utilizando apenas violas caipiras. Os violeiros são divididos em naipes (subgrupos) que executam, simultaneamente, linhas musicais independentes dentro de cada música. Em síntese, o objetivo é utilizar amplamente como recurso de arranjo e composição a combinação minuciosa dessas diferentes linhas musicais, as quais assumem funções melódicas, harmônicas, rítmicas, entre outras. O conjunto das linhas musicais, executadas com uma cuidadosa e lapidada interpretação, produz um resultado sonoro harmonioso, vivo, rico em detalhes, arrojado e ao mesmo tempo popular, colorido por uma ampla gama de sonoridades, texturas e nuances.

O segundo fator fundamental e característico da Filarmônica é o desenvolvimento musical dos integrantes. O processo envolve uma constante prática e amadurecimento técnico individual, motivado pelo crescente nível dos arranjos propostos, o que por fim, alimenta o próprio ciclo natural de evolução do grupo. Esse processo também está associado ao momento histórico atual de escolarização da viola caipira, que possibilita a profissionalização de novas gerações de violeiros aliada à ampliação da técnica instrumental aplicada à viola.

O grupo


Olhando para a trajetória da Filarmônica, pode-se dizer que ela passou por um processo de transformação e profissionalização, e ao mesmo tempo vem cumprindo um papel de ensino musical. Se no início o grupo surgiu a partir de um projeto de ensino de viola frequentado basicamente por violeiros tradicionais, músicos amadores e estudantes de música sob a direção de um profissional e seus monitores, gradativamente passou a contar com violeiros e instrumentistas profissionais, com formação musical, alguns de nível universitário que inclusive iniciaram seus estudos musicais na origem da própria orquestra.
Esse conjunto heterogêneo possibilitou à Filarmônica combinar a força e a diversidade das tradições da viola de transmissão oral juntamente com um constante aprimoramento técnico dos integrantes, base importante para criar uma linguagem musical consistente e atual, na qual as gerações e os saberes da tradição e modernidade convivem harmonicamente e se completam.

Trajetória


A Filarmônica de Violas surgiu em 2001 na cidade de Campinas/SP, idealizada pelo reconhecido violeiro e pesquisador Ivan Vilela, que durante nove anos implementou sua proposta pioneira de aplicar arranjos orquestrados para um grupo instrumental apenas formado por violas caipiras. A partir de 2011, após um período de transição, o projeto musical continuou a ser desenvolvido sob a direção de João Paulo Amaral.
A Orquestra já registrou seu trabalho em dois álbuns homônimos, lançados em 2005 e 2011. Atualmente prepara o terceiro disco. Dentre os prêmios e indicações do grupo, destaques para Prêmio Rival-Petrobrás em 2005 na categoria Atitude, prêmios dos editais ProAC para a turnê Viola na Trilha dos Bandeirantes em 2008 e a criação da Plataforma online Filarmônica de Violas em 2015, e Medalha Carlos Gomes da Prefeitura Municipal de Campinas em 2002.
Entre gravações e concertos, tocou em espaços como a Sala São Paulo e com nomes como Tinoco, Tetê Espíndola, Irmãs Galvão, Renato Brás, Ana Luiza, Ná Ozetti, Suzana Salles, Ana Gilli, Paulo Freire, Lenine Santos, Nailor Proveta, Alexandre Ribeiro e Fabio Presgrave.